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EMPREENDEDORISMO NA USP: ALUNOS SE AVENTURAM NO UNIVERSO DAS STARTUPS

por Redação JC

Apple, Google, Facebook, Amazon, Microsoft. O que essas empresas têm em comum? Além de serem gigantes da área tecnológica, todas foram, um dia, consideradas startups. Como o próprio nome diz, startups são empresas que estão começando, constituindo pequenas organizações que buscam desenvolver um modelo de negócios e lançar seu projeto no mercado. Na maioria das vezes, representam a típica imagem de uma empresa inovadora, nascida das mentes de jovens universitários e criativos. Assim como foram um dia Mark Zuckerberg, pai do Facebook, ou Larry Page e Sergey Brin, criadores do Google.

Embora empresas como essas não sejam mais startups – e sim multinacionais milionárias –, tudo começou de forma pequena tempos atrás. O modelo de startups, ligado ao empreendedorismo e à inovação, vem crescendo no mundo nos últimos anos, sobretudo com o avanço da internet. No Brasil, serviços famosos como Buscapé, 99 Táxis e Kekanto são exemplos de startups de sucesso. Mas o que pouca gente sabe é que tais projetos foram criados por alunos da USP.

Modelos como esses são cada vez mais frequentes nos institutos da universidade. Para o professor Fábio Kon, do IME (Instituto de Matemática e Estatística), o interesse dos alunos uspianos por empreendedorismo vem aumentando. “O empreendedorismo meio que é uma moda mundial, e o Brasil também está nesse contexto, sendo São Paulo o lugar mais ativo nessa área”, diz. “E a USP tem aproveitado isso, então a coisa tem crescido bastante. Mas tem potencial para crescer muito mais”.

Iniciativas na Universidade
Equipe do Núcleo de Empreendedorismo da USP trabalhando em sua sede, na Poli. O grupo foi fundado em 2011 e auxilia no desenvolvimento de startups uspianas (Foto: Carolina Oliveira)
Equipe do Núcleo de Empreendedorismo da USP trabalhando em sua sede, na Poli. O grupo foi fundado em 2011 e auxilia no desenvolvimento de startups uspianas (Foto: Carolina Oliveira)

Um dos projetos que tratam do desenvolvimento de empresas no modelo startup é o Núcleo de Empreendedorismo da USP (NEU). Fundado em 2011 e gerenciado apenas por alunos, o núcleo atua no fomento ao empreendedorismo na universidade. Para isso, trabalha como uma pré-aceleradora de startups: durante alguns meses, os membros da uma startup trabalham com os mentores do NEU no desenvolvimento e expansão do projeto. “A gente pega alunos da USP que estão querendo desenvolver alguma ideia, independentemente do estágio em que eles estiverem – seja só a consciência da ideia, ou se já estiverem desenvolvendo alguma coisa”, explica Maurício Carneiro, membro do NEU. “Eles passam por esse processo, recebem mentoria, ferramentas para usarem”. Hoje, o núcleo trabalha no auxílio a 15 startups, em sua sede na Escola Politécnica. Carneiro conta que a maioria das empresas vêm da própria Poli, mas também há participantes de outros institutos como IME e FEA.

Além disso, outro pilar do grupo é a organização de eventos relacionados ao tema, como o Started USP Weekend, que ocorreu no último fim de semana, trazendo oficinas e atividades voltadas ao público que possui startups – ou que simplesmente tem ideias para a criação de uma. “Fazemos vários projetos voltados principalmente aos três pilares que a gente tem de atuação: inspiração, capacitação e conexão”, diz Carneiro.

O IME, por sua vez, realizou neste ano seu primeiro programa de aceleração de startups, em parceria com a aceleradora brasileira Startup Farm. “Foi um sucesso absoluto”, conta o professor Kon, que auxiliou na organização do trabalho. Foram 110 empresas candidatas e 15 selecionadas. “Foi legal não só para as startups que participaram, mas para os professores aqui do IME e para os outros alunos, que tiveram contato com o tema. Todo o ambiente se beneficia”, afirma.

Outra alternativa de grande procura na USP é o Cietec. O Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia foi criado há 18 anos em parceria com o Ipen e o Sebrae, e funciona como uma incubadora de startups. Atualmente, ele ajuda cerca de 120 novos modelos de negócio, sendo quase 1/3 criados por alunos que estudam na USP.

As startups podem concorrer ao processo seletivo se inscrevendo pelo site do Cietec, por telefone ou através de uma visita pessoal ao centro. “Eles devem demonstrar que precisam do conhecimento que receberão aqui, para complementar aquilo que já sabem”, comenta Sérgio Risola, diretor-executivo do Cietec. Depois da apresentação da ideia, as startups são submetidas a uma entrevista e um processo que dura até 30 dias, podendo ser aprovadas ou não.

Dentro da incubadora, há diversos “pacotes” de auxílio. As startups recebem desde consultoria jurídica, entendendo processos como CNPJ e tarifas tributárias, até direcionamento sobre qual o melhor modelo de negócio, auxiliando no marketing, criação da identidade visual da empresa, patentes, cuidados com a propriedade intelectual e material das empresas nascentes.

O Cietec também ajuda na obtenção de auxílios em instituições como Fapesp, CNPq, Finep entre outros. Em 16 anos, já foram distribuidos mais de 220 milhões de reais, que ajudaram a alavancar quase 300 startups. “Nós estamos auxiliando na melhor maneira de gastar esse dinheiro público e como o empreendedor busca outros recursos”, comenta Risola. “Os investimentos estão passando por um momento delicado, mas estar aqui é estar mais próximo do dinheiro”.

Cultura de negócios
Apesar do potencial que a universidade possui, Kon aponta que ainda falta na USP uma mentalidade empreendedora, que deveria ser desenvolvida por meio de eventos e disciplinas que incentivassem a criação de startups e a disseminação de projetos no mercado. Segundo levantamento do NEU, existem hoje 68 disciplinas na USP que abordam a temática do empreendedorismo. Contudo, para o pesquisador, tal número ainda é insuficiente. “Na média é muito pouco. Todo curso na USP deveria ter uma disciplina de empreendedorismo, de forma bem prática e atual”.

O professor do IME, que já esteve em Israel – um dos principais centros de startups do mundo –, argumenta que o desenvolvimento na área passa invariavelmente pelas universidades. “Todas as grandes empresas que hoje dominam o planeta saíram de universidades. Então, se o Brasil quiser ter um papel nesse contexto, precisa dar suporte a elas”, diz. Para o docente, alunos da pós-graduação e doutorado, por exemplo, têm grande potencial para desenvolver ideias inovadoras e bem-sucedidas. Ainda assim, a maior parte da pesquisa realizada na USP acaba não virando projetos práticos.

Por outro lado, Kon avalia que o problema não é causado necessariamente por falta de recursos financeiros no setor. “Acho que não falta investimento, esse não é o gargalo”, diz. José Antonio Siqueira, professor da Poli, também reitera que o que realmente falta são estímulos para que os alunos pensem de forma empreendedora. “Não acho que a USP deva financiar as startups. Não é missão da universidade. O que ela deve é refletir se não poderia ser investidora de boas ideias, como ocorre nas maiores universidades do mundo”, afirma.

O próprio NEU é uma iniciativa exclusiva de estudantes. Embora conte hoje com certo apoio institucional da USP e de alguns professores – que fornecem, por exemplo, a sala que sedia o núcleo –, o grupo funciona sozinho. “Foi um movimento legal que a gente começou por parte dos alunos mesmo. A USP não ajuda tanto nisso, e só depois fomos recebendo esse reconhecimento da universidade”, conta Carneiro.

Renan Lima, aluno da Poli e atualmente trabalhando no projeto de uma startup, comenta que ainda falta na universidade o estímulo em se criar ideias para modelos de negócios. “Se você tem uma ideia, aqui é um excelente lugar para encontrar apoio. Mas o lado criativo é pouco incentivado”, diz. Lima e o colega Pedro Jaloto tiveram a ideia de sua startup na Campus Party deste ano: um sistema antifurto para notebooks, conectado à nuvem, no qual o usuário recebe uma notificação se acontecer algo com o aparelho. “A gente vê que 90% dos alunos da Poli não pensam em empreender. Os alunos têm a mente mais fechada, focada na formação e não em inovar, criar”, diz Pedro.

Histórias de sucesso
Enquanto Renan e Pedro ainda buscam uma iniciação em seu projeto, uma série de startups de ex-alunos uspianos já colhe frutos das boas ideias. Uma delas é a Bright Photomedicine. Incubada no Cietec, a empresa desenvolveu o Light-Aid, um curativo portátil e flexível que utiliza a luz para a redução e bloqueio da dor em qualquer parte do corpo. A ideia da empresa surgiu a partir do doutorado em física médica aplicada de Marcelo Sousa, um dos fundadores, no qual o tema era fotomedicina.

Quando terminou o doutorado, Sousa patenteou o invento e planejava licenciar. Porém, durante uma estada em Harvard, mudou de ideia e resolveu abriu a Bright Photomedicine para desenvolver o produto.

“A principal dificuldade foi a transição de ser um pesquisador para um empreendedor”, comenta Naira Bonifácio, diretora de negócio da Bright. “Tudo é novo e a visão sobre o invento é totalmente diferente”.

Segundo Naira, eles não obtiveram grande ajuda da USP além do Cietec. “Vemos a universidade como um excelente celeiro e aproveitamos bastante nossa ligação com ela para atrair talentos e buscar parcerias com institutos e laboratórios. Acreditamos que a USP tem bastante a desenvolver em relação ao suporte a startups e ideias”, diz.

Também nascida na USP, a Tripda Brasil é uma plataforma online gratuita onde os usuários podem compartilhar caronas ao redor do Brasil, e nasceu da necessidade de viajar. Eduardo Prota, co-founder da empresa, estudava na USP de Ribeirão Preto e precisava viajar até São Paulo, mas nunca conseguia carona. Quando morou nos Estados Unidos, conheceu alguns modelos de plataforma de carona, e começou a implementar o formato da Tripda. Já Daniel Bedoya, desenvolvedor do Caronas.com, uma outra plataforma para ajuda em viagens, juntou-se a Tripda, para, em parceria, trabalharem de forma mais forte no mercado.

Bedoya era estudante da Esalq (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”) quando começou a desenvolver sua plataforma de caronas, e conta que não teve ajuda da universidade. “Morávamos em república, e começamos a trabalhar com o público universitário ao nosso redor por conta própria”, comenta. “Nós conversamos com professores adeptos à nossa ideia e também com o diretor na época, que deu um apoio de maneira informal. Nesse ponto a USP ajudou”.

Segundo o empresário, as discussões sobre empreendedorismo cresceram bastante nos últimos dois anos, mas a universidade ainda promove pouco esse debate “Há uma tentativa de começar a trabalhar com isso, mas é uma coisinha ou outra. Ainda falta o ensinamento da prática do empreendedorismo, a execução”.

Por Carolina Oliveira e Thiago Castro

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