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Venda de célula e réplica de órgão em impressora 3D vira negócio

Marcos Valadares, sócio da Pluricell, no laboratório da empresa em São Paulo (Fotos: Keiny Andrade/Folhapress)

Marcos Valadares, sócio da Pluricell, no laboratório da empresa em São Paulo (Fotos: Keiny Andrade/Folhapress)

Fonte: Folha de São Paulo
EVERTON LOPES BATISTA, DE SÃO PAULO
Fotos: Keiny Andrade/Folhapress

 

O site anuncia: cardiomiócitos humanos já disponíveis em versão beta. A frase não vem de um futuro distópico; a Pluricell, dona da propaganda, é pioneira no Brasil na venda de células-tronco.

A empresa é um exemplo de companhias de base tecnológica e científica que entraram na briga por financiamento de fundações de apoio à ciência para levar inovação para a área da saúde.

Fundada por dois biólogos em 2013, a Pluricell vende células-tronco pluripotentes -células adultas reprogramadas para se tornarem qualquer tecido do corpo- e recebeu cerca de R$ 2 milhões pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo) e pela plataforma de financiamento coletivo Broota.

Os principais produtos são os cardiomiócitos (células do coração) e os queratinócitos (da pele), usados por laboratórios para modelar doenças específicas e testar remédios.

Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), produtos para ensaios clínicos, como as células da Pluricell, não precisam de registro.

As vendas começaram em janeiro e desde então já movimentaram R$ 100 mil, diz um dos sócios, o biólogo Marcos Valadares. Ela funciona em uma pequena sala no Cietec (Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia), uma incubadora de empresas na USP. “É um mercado imaturo ainda. Os pesquisadores no Brasil não têm o hábito de usar essas células”, afirma ele.

Uma das estratégias da empresa é oferecer um serviço de assinatura mensal, no formato do streaming de vídeos Netflix. O cientista recebe em seu laboratório todo mês a quantidade de células que precisa para seus estudos por um valor fixo. Enquanto a demanda não aumenta no país, a companhia se prepara para a internacionalização no próximo ano. “Enviamos nosso produto para cientistas estrangeiros testarem e o feedback foi positivo”, diz o biólogo.

BIOMODELOS

Na BioArchitects, de São Paulo, impressoras 3D produzem próteses e biomodelos -réplicas customizadas de órgãos humanos. O negócio, que surgiu há quatro anos, conta com um investidor que já injetou R$ 2 milhões.

“O biomodelo permite estudar casos específicos. O médico pode, por exemplo, simular uma cirurgia na réplica e economizar tempo de procedimento e de uso de equipamentos do hospital”, explica o CEO Felipe Marques.

Cada peça custa entre R$ 3 mil e R$ 4 mil e é feita com base em imagens de tomografia computadorizada ou ressonância magnética. Segundo Marques, a iniciativa ainda está na fase de investimento e o faturamento não é significativo.

Já existem, porém, casos mais antigos com histórias de sucesso na área. Em 2004 cinco alunos de engenharia da computação da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) fundaram a Hi Technologies com o objetivo de usar o que estavam aprendendo para inovar a tecnologia médica. O orçamento inicial foi de R$ 2.500.

Nos últimos 12 anos a empresa desenvolveu softwares e hardwares para hospitais e companhias de home care. Em 2015 o faturamento chegou a R$ 2 milhões. O resultado chamou a atenção da
Positivo Informática, que no início de 2016 virou acionista da companhia.

De acordo com Marcus Figueredo, CEO da Hi Technologies, cerca de 75% do dinheiro nos primeiros anos saiu de instituições de apoio para pesquisa e empreendedorismo. “O segredo é sobreviver. No começo não tínhamos dinheiro nem experiência, mas fomos resilientes e dispostos para fazer a ideia funcionar”, diz ele.

RESISTÊNCIA

A resistência aos novos produtos é uma das principais barreiras encontradas por empresas voltadas para a inovação nas áreas da saúde e da medicina.

“O médico pode pensar que queremos substituí-lo, mas nosso objetivo é ajudá-lo a melhorar a qualidade do trabalho”, afirma o engenheiro Vitor Mori, responsável técnico da Carenet, empresa de tecnologia para a saúde.

A Carenet atua como uma plataforma que captura dados do paciente por meio de diversos dispositivos e transforma em informação para profissionais da saúde.

Segundo Mori, esse monitoramento auxilia na condução correta do tratamento.

O caminho para vencer a resistência, diz Mori, é se aproximar de instituições com histórico de pesquisa e inovação. “A chave é fazer a conexão com quem produz a ciência na saúde”, afirma.

A BioArchitects, que produz próteses e biomodelos, procura alcançar os profissionais influenciadores no ramo.

“Realizamos estudos que mostram como o uso dos biomodelos pode reduzir gastos e oferecemos uma réplica para que ele experimente o produto”, conta Felipe Marques, CEO da empresa.

Segundo ele, o profissional ganha por experimentar a novidade e a empresa tem a oportunidade de aprimorar seu serviço com os diferentes casos apresentados pelos médicos.

FORMAÇÃO

Outro desafio apontado pelos cientistas empresários é a formação para lidar com o mundo dos negócios.

“Nas graduações de ciências faltam matérias ou orientações para quem deseja ser um empreendedor”, diz Marcos Valadares, da Pluricell. Na empresa trabalham biólogos e biomédicos.

Para contornar a defasagem, Valadares está cursando o MBA em gestão da inovação em saúde no Instituto Butantan.

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